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Rota das histórias da linguagem
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Rota das histórias da linguagem

O futuro da sociedade não pode ser pensado nem sonhar-se sem o uso da palavra oral e escrita

E. Rubiano

Vivemos em sociedades totalmente dependentes da linguagem, nada poderíamos fazer senão podemos expressar-nos, comunicar-nos, ler ou escrever, somos usuários permanentes da linguagem; no entanto, poucas vezes perguntamo-nos…

Como surgiu a linguagem?

Existem várias hipóteses, as mais mencionadas são a mítica, a religiosa e a científica. Vamos ver que interessante resultará dar um breve passeio por esta história, além disso, faremos a expansão do nosso nível de consciência e será uma oportunidade para agradecer aos nossos antepassados por tanta dedicação e criatividade. Agora, dentro de uma máquina do tempo imaginária, a aventura começa assim:

A suposição mitológica…

Desde o início, o ser humano ancestral perguntou-se sobre a origem do mundo e deu-se respostas mágicas que representaram em mitos, narrativas fantásticas, em algumas das quais a origem da palavra ocorreu antes da criação do mundo. Imaginem a importância que teve a palavra em todos os tempos. Vejamos o Mito Maquiritare como um exemplo:

Naquela época Uanádi, filho do Sol e o maior herói cultural, tinha a intenção de criar os homens para povoar a terra, onde só viviam até então os animais. Ele fez a tal objeto uma esfera milagrosa, feita de pedra, a qual estava repleta de pessoas pequenas ainda não nascidas; de dentro se ouviram seus gritos, suas conversas, seus cantos e suas danças…

A interpretação religiosa…

A explicação da origem da palavra, de acordo com as crenças religiosas, se fundamenta na importância que teve à palavra nas escrituras sagradas: “No princípio a Palavra era, e a Palavra estava com Deus, e a Palavra era um deus”. A linguagem, neste caso, seria vista como um dom de Deus, dado ao primeiro homem “Adão” para comunicar-se com Deus e com a sua companheira, e para nomear a todos os animais. “Em toda a terra se falava a mesma língua e as mesmas palavras”. Construir-se-ia uma cidade (Torre de Babel), que chegaria até o céu; para impedir a construção, Deus confundiu suas línguas de modo que não se entendessem uns com os outros, dando origem às línguas ou idiomas.

A perspetiva científica…

Finalmente, a origem da linguagem a partir da perspetiva científica significou um enigma, não se sabe com certeza quando nem como nasceu. As teorias evolucionistas referem estudos antropológicos de alguns crânios encontrados, os quais demonstraram que os primeiros indivíduos não falavam. Estima-se que o fizeram há mais de 50 000 anos, seja porque o aparelho fonador desenvolveu-se ao longo do tempo ou porque o funcionamento social fez com que as estruturas biológicas fossem alteradas para dar resposta às necessidades do meio ambiente. Primeiro, os nossos antepassados emitiram sons guturais, fizeram gestos, imitaram sons até conseguirem articular uma linguagem, criar símbolos e expandir o signo linguístico.

A verdade é que o aparecimento da linguagem, qualquer que seja a sua origem, foi decisivo para a humanidade:

  • A palavra faz a diferença entre a existência do mundo material e o imaterial, diz o que podemos ver e o que não podemos ver: o espírito, a ficção, a fantasia, a imaginação, os sonhos, o passado e o futuro.
  • A palavra expressa o ser: quem pensa, medita sobre a linguagem, o faz porque ele torna visível o ser.
  • O verdadeiro ser das coisas está fora destas, na ideia e na linguagem, não é mais que a sua expressão externa.
  • A linguagem significa o mundo, é o lugar da expressão das ideias e permite a comunicação.

Como chegamos ao alfabeto?

Depois de ter atingido esta maravilha, que deve ter significado uma grande alegria, como a festa que fazemos com nossos bebés quando emitem a primeira palavra, passaram-se muitos anos, mais de 4 000 para que se iniciasse a história da língua escrita com a conformação progressiva do alfabeto que foi inventado entre o século XVI e o século XX (a.C.), antes da nossa era. Sua grande vantagem foi a univocidade, ou seja, deriva da convenção social, todos concordaram, evitando as resistências e os conflitos.

Assim, a origem do alfabeto teve implicações geográficas e culturais. O homem primitivo se diversificou, segundo o local de seu habitat: Mesopotâmia (sumérios, semitas, babilónios, assírios, hebreus), Fenícia (a grande contribuição dos fenícios foi o aperfeiçoamento e a divulgação do alfabeto), Egito, Babilónia, Pérsia, Índia, Grécia, Roma, China / Astecas, Maias e Incas. No entanto, em qualquer parte, o processo evolutivo foi mais ou menos o seguinte:

Fase ideográfica.

Pintura rupestre, proto-escrita, hieróglifos, escrita pictográfica ou ideográfica, cuneiforme, a escrita hierática, escrita demótica, os símbolos polissémicos ou polífonos. Tudo isso quer dizer que, como as crianças, o ser humano começou desenhando, até chegar a escrever grafias, marcas parecidas com as letras que lhe atribuíram um valor sonoro.

Fase silábica

 

O fonograma permitiu que cada signo expressasse uma sílaba e, combinada com outras formasse uma palavra. Eram como letras que, em vez de representar um som, representavam um pedaço da palavra, o que agora chamamos de sílaba, imaginem quantas eram necessárias para escrever.

Fase pré-alfabética

Os signos já eram instrumentos gráficos aos quais lhes foi atribuído um som, signos fonéticos em infinitas combinações.

Fase alfabética

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A transição final desde a escrita consonântica até a escrita alfabética foi finalmente criada. As sílabas são dissolvidas em acasalamento consoante-vogal, o alfabeto tinha nascido!

Soa complicada esta evolução?

As pinturas rupestres e as gravuras da caverna de Altamira, testemunhos da primeira fase, foram criadas há mais de 15 000 anos a. C. aproximadamente e é no ano de 3 400 a. C., quando se supõe que a escrita alfabética foi inventada, o que quer dizer que a escrita representa a conquista e a viragem mais decisiva da evolução humana que levou quase 12 000 anos para ser atingida. Graças às escritas alfabéticas se pode transcrever tudo o que seja dito, permite a formalização de lógicas, gramáticas e dicionários explícitos. Isto é, com 26 letras combinando-as em uma relação fonema-letra, podemos escrever tudo o que queremos do mundo. A forma como funciona o sistema alfabético é realmente um fenómeno, é um sistema económico e de fácil compreensão em relação a tarefa que realiza.

A história está apenas a começar…

A história não termina aí, uma coisa é o alfabeto, outra a língua que se escreve e as práticas de leitura e escrita. Vamos revisar este fio histórico, por demais interessante:

  • O aparecimento da cerâmica, a madeira, a tinta e o papiro originam diversas práticas de leitura a partir da escrita de hieróglifos. Serviram de suporte da escrita entre 1 500 a 3 000 a. C., e o rolo continuou até à era depois de Cristo.
  • Do rolo tradicional mudou-se para o códice, ao livro com “páginas”. Essa alteração ocorreu no século IV e V C. e, continuou a ser usada durante a Alta Idade Média.
  • A imprensa de Gutenberg permitiu, a partir do ano de 1 440, a reprodução de textos e a sua circulação a uma velocidade vertiginosa. Se democratizou a prática da leitura, que até aquele momento era exercida por pouquíssimos privilegiados.
  • Acontece uma mudança entre uma presença fraca do livro e uma difusão mais ampla da alfabetização e das práticas da leitura.
  • As primeiras coleções de livros referem-se ao académico, ao profissional, textos vinculados a ofícios.
  • Circulavam alguns textos de consumo e se identificam outras práticas sociais de leituras.
  • Renascem as cidades e, com elas as escolas que eram sedes de livros; se lia muito mais e de maneira diferente, portanto, também se escrevia mais textos de diferentes tipos.

  • Aparecem as bibliotecas, espaços que no início não se dava acesso público, eram a manifestação das dinastias de poder, centros de acumulação ao serviço de eruditos e homens de letras, até que se tornaram públicas. As bibliotecas são uma realidade consolidada ao longo de mais de quatro mil anos de história, correm em paralelo com às da escrita e do livro.
  • As revoluções técnicas e tecnológicas afetaram as práticas da leitura, os modos de reprodução de textos e da elaboração do livro. A cópia manuscrita, a prensa para imprimir gerou uma mudança, reduziu os custos de processamento e o tempo de fabricação.
  • A transmissão eletrónica dos textos e as maneiras de ler que se sucedem a partir dela, representam outro tipo de revolução da leitura, muito mais democratizadora do que a dada pela imprensa. Recentemente, nasceu com a internet no ano de 1983, depois de três décadas de testes e experimentações.
  • A internet deveria fornecer os fundamentos para criar uma humanidade que pudesse relacionar-se e compreender-se mutuamente. No entanto, tudo indica o contrário: este prodígio tecnológico abre o entendimento, mas também pode ser um instrumento fabuloso para fechar os teus olhos.

Gostaram do passeio que demos por este fio histórico? Os nossos antepassados merecem uma oração de agradecimento por terem possibilitado a evolução da linguagem oral e escrita e de todas as práticas de leitura e escrita que hoje são possíveis. No passado, tudo isto parecia a mais incrível história de ficção científica, mas hoje já é possível, a partir da web 1.0 até 2.0, a geração @ (arroba), a qual permitiu níveis de navegação muito amplos e a geração # (hashtag), com a qual se alcançou uma conectividade, mobilidade e hipervirtualização surpreendentes.

Além disso, hoje se fala de nativos digitais, que são todos os que nasceram quando já existiam essas tecnologias e imigrantes digitais, que nasceram antes e fizeram a transição da era analógica para a digital, outro tipo de alfabetização que será aprendida como uma língua materna ou como uma língua estrangeira ou segunda língua, cada uma com mais vantagens do que a outra em forma relativa. Esta distinção entre os “nativos digitais” e os “imigrantes digitais” pode ser contraproducente para acreditar nela de maneira absoluta. A tecnologia pode que não se importe com a idade, na verdade, não depende da idade cronológica, senão, mais do contexto, da necessidade e do funcionamento.

Agora, neste mundo digital como vamos com a linguagem?, Como são desenvolvidas as práticas de leitura e da escrita? É um mundo inteiro para falar sobre isso, sem dúvida, essas práticas significaram um nível de democratização, conectividade e inter-relação inimaginável, mas também se evidencia uma precariedade na construção de sentidos e dos atos comunicativos, parece que o importante é estar ligado mais do que se diz. A era digital está a evidenciar a grande solidão do ser humano, tem afetado a interação humana de forma significativa, surge com ela uma regressão ao encantamento arcaico, até se incorpora com os emoticons, uma espécie de sistema ideográfico que pode favorecer a expressividade, mas pode limitar também a riqueza da linguagem.

Dada toda esta evolução, considerando até mesmo as críticas que merece cada etapa, não podemos ficar para trás, por isso, no âmbito da nossa escola de bem-estar, oferecemos a possibilidade de que invistas tempo e dedicação em tornar possível que as tuas práticas de linguagem, de leitura e de escrita se diversifiquem e possas fazer parte desta história, pois, nós temos de dar-lhe continuidade, sem dúvida, temos uma dívida com os nossos antepassados, muito tempo e esforço para que os herdeiros não aproveitemos os benefícios das boas práticas de leitura e escrita.

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